sábado, 7 de dezembro de 2013

DESENCONTRO


 
                      

                                   

 

DESENCONTRO


Um dia destes,
quando me for oportuno,
hei-de procurar por ti
seja onde for.
No infinito do céu
por entre as nuvens.
Na aridez do deserto,
pelo cimo das dunas.
Na frigidez dos polos,
pelos intermináveis glaciares.
Nos abismos dos mares
por entre os corais.
No recôndito das florestas,
onde nem o Sol penetra.
Seja lá onde for,
hei - de - te achar.
Pois neste Mundo por onde andei,
por mais que te procurasse,
nunca te encontrei …

 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O MEU RIO

Num longínquo dia do ano de 1931, foi-me dado vir a este mundo nesta pequena vila ribatejana que, prazenteira, se debruça sobre o rio Tejo: VILA NOVA DA BARQUINHA. Se me são saudosos  os muitos anos de permanência em Moçambique, não o são menos aqueles que vivi e me formaram na minha terra natal. E, sendo assim, sentir-me-ia limitado se não trouxesse a este meu "site" um só que fosse dos meus vários poemas de saudade já publicados pelo jornal barquinhense Novo Almourol.
                                                                                                                                       

O MEU RIO

 
O meu rio era uma estrada de prata
que eu via refulgir ao Sol,
por entre o verde salgueiral da maracha:
a jusante espelhando a torre da Cardiga,
a montante o alvo casario do Arripiado.
Cordeirinho manso quando o Verão se adensa,
tigre enfurecido no Inverno agreste.
O meu rio morava ali, perto de mim,
na minha frente do outro lado da rua
e, quando a raiva o enfurecia, transbordava,
e entrava-me em casa sem pedir licença,
assim  como se fosse da família;
tal qual como eu, quando o calor apertava,
sem sequer a salvação lhe dar,
entrava por ele adentro para me refrescar.
Os cais do meu rio estavam pejados de barcos:
canoas, faluas, fragatas varinos e abringéis,
e jangadas com toros de pinho,
que ali aportavam com destino à serração.
E, ainda, a barca que o atravessava de manhã cedo,
trazendo os burros ajoujados de hortaliças,
com gente da Carregueira que a vinha vender à praça.
Era um rio com vida que vibrava e tinha raça,
que nascia e morria todos os dias num arrebol de luz.
No meu rio voavam galinholas e narcejas,
nadavam o barbo, o sável e a lampreia,
serpenteavam as enguias, saltavam as fataças.
Ali, na sua margem junto ao denso canavial,
eu deixava escoar o tempo num contemplativo olhar,
vendo deslumbrado o rio naquele seu suave deslisar.
Mas, agora, que tantos anos são volvidos,
quando procuro esse meu rio, não o encontro.
Desapareceu, não existe.
O que resta do meu rio são resquícios,
de um rio a que continuam chamando Tejo.
Mantem o mesmo nome, é certo!
Mas já não é o meu rio.
 
 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O MENINO BRANCO

                               
                        O MENINO BRANCO

 

Nas tardes de muita soalheira,
enquanto moleque Fabião,
à sombra da mafurreira
toma conta do menino branco,
atento e vigilante
não se vá o menino branco magoar,
sua patroa, ainda mais atenta e vigilante,
segue as vasas da canasta
em casa de Dona Conceição,
  o que é natural e muito mais importante.
Não é, obviamente,
tomar conta do menino branco,
pois isso é do moleque obrigação.
Até porque, como se torna evidente,
se o menino branco se magoar,
quando chegar a casa o patrão,
moleque é que vai levar maningue porrada,
por não ter tomado devida conta
do menino branco,
como, aliás, é sua estrita obrigação!
 
MANINGUE: muito/a (dialeto xi-ronga)